A pegada de um litro de água engarrafada
Para colocar um litro de água na sua mesa, o sistema gastou mais de um litro de água antes disso.
Para colocar um litro de água engarrafada na sua mesa, o sistema gastou mais de um litro de água antes disso.
A estimativa mais citada é de cerca de 1,3 litro de água por litro engarrafado, contando o processo produtivo inteiro. É um número que costuma causar uma pausa na conversa, porque contraria a intuição de que água engarrafada é, essencialmente, água colocada dentro de um recipiente.
Ela não é. Ela é um produto industrial, e a água é a menor parte dele.
O que existe dentro de uma garrafa
Vale desmontar o item, porque a maior parte do impacto está em tudo menos no conteúdo.
A embalagem. Produzir PET consome petróleo, energia e água. Antes disso, a resina precisou ser fabricada, transportada e transformada. Uma garrafa PET de meio litro carrega, nas estimativas de literatura, algo em torno de 111 gramas de CO₂ equivalente — vale registrar que esse número varia bastante conforme a matriz energética e a distância de transporte de cada país, e que a referência aqui é internacional.
O transporte, duas vezes. A embalagem vazia viaja até o envasador. A embalagem cheia viaja até o distribuidor e depois até a sua porta. E aqui está o detalhe economicamente absurdo desse produto: você está pagando frete para transportar água, que é pesada, abundante e já existe encanada no endereço de destino.
A refrigeração. Uma garrafa que precisa ser servida gelada é refrigerada no seu estoque, ou seja, gasta energia proporcional ao tempo que fica ali esperando. Meses dentro de plástico, às vezes com calor no caminho, também são a origem de uma discussão à parte sobre microplásticos.
O fim de vida. Coleta, triagem e destinação — com a probabilidade real de reciclagem sendo bem menor do que o símbolo no fundo sugere, como discutimos em o mito da reciclagem.
Água encanada percorre metros até o seu balcão. Água engarrafada percorre centenas de quilômetros para chegar ao mesmo lugar — dentro de um objeto fabricado só para essa viagem.
A comparação honesta
Aqui é onde este texto precisa ser mais cuidadoso do que o normal, porque comparações ambientais convenientes envelhecem mal e destroem credibilidade.
Um sistema de purificação instalado não tem impacto zero. Ele tem:
- um equipamento fabricado e transportado, uma única vez;
- consumo elétrico contínuo, para refrigerar — e refrigeração é a parte energeticamente relevante de qualquer sistema de bebida gelada;
- CO₂ para carbonatação, quando há água com gás;
- elementos filtrantes substituídos periodicamente e descartados;
- água de descarte nos procedimentos de troca e sanitização.
Isso é real e deve ser dito. A diferença não está em um lado ter impacto e o outro não. Está na estrutura do impacto.
De um lado, um custo majoritariamente fixo: um equipamento que é fabricado uma vez e depois consome energia e insumos de manutenção. Do outro, um custo que se repete a cada unidade servida, indefinidamente, e que cresce exatamente na proporção do sucesso da casa.
Quanto mais a operação serve, mais favorável fica a comparação. Numa casa de baixo volume, a diferença é modesta. Numa casa de alto giro, ela deixa de ser uma discussão.
O que dá para medir sem consultoria
Se você quiser sair do abstrato, existe um exercício que qualquer operação consegue fazer em vinte minutos e que costuma ser mais persuasivo do que qualquer estatística internacional.
Pegue o número de garrafas que a casa comprou nos últimos doze meses — o dado já existe, está nos pedidos de compra.
Agora responda, com esse número na mão:
- Quantas embalagens saíram desta casa em direção a um aterro ou a uma central de triagem?
- Quantas viagens de fornecedor foram necessárias para trazê-las?
- Quantas horas de equipe foram gastas recebendo, movendo, gelando e descartando essas unidades?
Nenhuma dessas perguntas exige metodologia de pegada de carbono. As três são respondidas com dados da própria casa, e juntas elas descrevem o impacto de forma mais concreta do que qualquer média global.
Por que julho
Este texto sai em julho por um motivo. O Plastic Free July começou em 2011, na Austrália Ocidental, e hoje mobiliza pessoas e organizações em cerca de 190 países durante o mês inteiro.
O movimento sempre teve um foco duplo: pessoas e negócios. E há uma razão pragmática para isso. Um negócio muda um ponto de decisão e afeta o consumo de milhares de pessoas. Uma pessoa muda o próprio hábito e afeta o consumo de uma.
Entre todos os descartáveis de uma operação de alimentação, a água engarrafada é o mais fácil de eliminar — não porque seja o maior volume, mas porque a alternativa não exige que ninguém abra mão de nada. O cliente continua bebendo a mesma quantidade de água, na mesma temperatura, com ou sem gás. Só muda o recipiente e quem responde pela qualidade.
É a rara mudança em que a versão sustentável é também a versão melhor de servir. Escrevemos sobre o princípio por trás disso em a garrafa mais sustentável é a que nunca é produzida.
Da conta global para a torneira da copa, existe uma lista curta de ações concretas: escassez hídrica e o que uma cozinha pode fazer.